Depois da retórica da primeira parte, finalmente saimos de carro até a igreja, na primeira esquina o carro resolveu começar a fazer um barulho estranho e perder a tração. Voltamos e fomos para o ponto de ônibus. Fizemos sinal para um micro-ônibus e entramos. Quando subo o primeiro degrau vejo que existe uma pessoa sentada em um espaço que fica vazio entre o para-brisa e a porta da frente por onde as pessoas entram.
Escolho um lugar e olho para ver o que está acontecendo na frente. Lá esta sentado um bichinha (não é preconceito nem piadinha, é o melhor jeito de descrever) de seus 40 anos, com roupas sujas e velhas, comendo uma manga e com o rosto aguado de choro. Quando percebo que o motorista está conversando com ele, e só tinha parado para atender os passageiros que acabavam de entrar, e do outro lado uma senhora também se metia na conversa.
Ele dizia que foi abandonado pela familia por ser gay (”Meu erro foi nascer viado, que que eu posso fazer, aí meus pais me expulsaram de casa”) e que não teve outra escolha além de ir morar na rua, já que não arranjava emprego por não ter documentos, casa, entre outros. Foi quando o motorista começou a “evangelizar” e guiar o ônibus ao mesmo tempo. Dizendo-lhe palavras de efeito, pondo em dúvida a ética da familia do pobre coitado que já voltava a chorar, dizendo que mesmo que a familia dele tenha o abandonado, Deus não iria abandonar seu filho, enquanto ele alternava entre concordar, enxugar os olhos, e tirar outra mordida da manga. E para terminar disse que ele deveria ir até uma igreja. Fazer o que, eu juro que não sei.
Mas então o “bichinha” disse que não poderia ir até lá, já que ele era, nas palavras dele, viado. Então o motorista fez um pequeno discurso que resumido queria dizer que não tinha problema que ele poderia ir sim lá, e disse mais, disse que ele iria pagar a passagem dele sem problemas e que iria deixá-lo na frente da igreja (que é caminho do ônibus), mas ele teria que prometer que iria lá e o bichinha fez um sinal com os ombros dizendo “Não tenho nada à perder mesmo”, chegou o meu ponto e eu desci do ônibus.
Com excessão do ponto em frente a igreja católica que eu fui, só existe outro, em frente ao “Templo Maior” da Universal (IURD) do conhecido de todos Edir Macedo, Macedão para os íntimos, que até que perdeu território com a “Igreja Internacional da Graça de Deus” (reparem que o nome não diz nada) do R.R. Soares graças aos Sagrados Boletos Bancários pagáveis em qualquer banco por todo o território nacional. Mas isso é outra história.
Mesmo sendo totalmente cético, não há como negar, Deus é o melhor “amigo” dos psicológicamente debilitados, mas não é atoa. Se tudo dá errado na sua vida, o jeito mais fácil de se livrar dos problemas é colocando tudo nas mãos de um “cara” que tudo vê, tudo pode, e tudo sabe te deixando livre para viver sua vida sabendo que o que acontece é porque ele quis assim, e principalmente, sabendo que ele te ama. E para o bichinha saber que uma pessoa conjugada no masculino o ama é ainda mais especial (agora sim foi uma piadinha, de mau gosto, diga-se de passagem)
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